Aluno de 12 anos foi atingido pela machadinha nas costas e teve um corte de 5cm. Escola retomará as atividades na próxima segunda-feira (26).

Um dia após o ataque ao Instituto Estadual Educacional Assis Chateaubriand, que resultou na apreensão de um adolescente de 17 anos, na quarta-feira (21), os alunos que foram machucados estão todos bem, em casa. Aos poucos, as feridas emocionais também começam a cicatrizar.

A reflexão é do estudante Nicollas Camargo, 12 anos, um dos meninos que foram atingidos por golpes de machadinha. Ele afirma que o corte de 5cm na região lombar não dói. O que incomoda são os pontos e o curativo.

Nesta manhã, ele compareceu à reunião promovida pela escola para tranquilizar a comunidade escolar e explicar que as aulas serão retomadas apenas na próxima segunda-feira (26). Segundo o garoto, as emoções envolvidas eram as mais variadas, embora, de maneira geral, todos estejam mais tranquilos em relação ao que aconteceu no dia anterior.

“Uns estão assustados ainda, outros estão tranquilos com a situação. Estou bem preocupado mesmo na questão de voltar às aulas. Mas é coisa de tempo”, reflete.

Menino teve corte de 5cm na região lombar — Foto: Arquivo Pessoal
Menino teve corte de 5cm na região lombar — Foto: Arquivo Pessoal

O aluno conta que, no momento do ataque, estavam todos conversando sobre a prova de geografia na semana seguinte. O sinal havia tocado cerca de 20 minutos antes. Quando viu o fogo do coquetel molotov e ouviu o pequeno estampido, imaginou ser um incêndio ou um curto-circuito, e associou a imagem do adolescente com uma machadinha a alguém que tentava quebrar o vidro do extintor de incêndio.

Somente quando o agressor começou a desferir golpes percebeu se tratar de um ataque.

No mesmo instante, notou que duas colegas estavam na linha do ataque e correu para empurrá-las para a direção contrária a do criminoso. Foi neste momento que foi atingido nas costas.

“No meu ponto de vista, pensei que elas precisavam mais do que eu”, relata. “Eu estava longe, mas quando vi que ia atingir elas, me pus de escudo. Pensei: ’Vai fazer estrago, são mais frágeis’. Então, me coloquei para ajudar.”

Juliano Mantovani ajudou a desarmar o agressor em escola de Charqueadas — Foto: Reprodução / RBS TV
Juliano Mantovani ajudou a desarmar o agressor em escola de Charqueadas — Foto: Reprodução / RBS TV

Professor evitou tragédia

O ato heroico foi sucedido por outro gesto ágil do professor Juliano Mantovani. O educador de Educação Física, que estava a caminho de outra sala para buscar materiais para a sua turma, desarmou o agressor e evitou que ele atingisse mais alunos.

“Nessas horas, a gente não pensa na nossa vida. Pensa só na vida dos nossos alunos que são nossa responsabilidade dentro da escola”, disse Juliano na tarde de quarta.

Quando o adolescente fugiu, Nicollas pulou uma janela e tentou correr. Estava assustado e pensava apenas em ir para casa. Foi só quando uma professora falou que estava ferido que percebeu o corte na pele. Ele teve o sangue estancado e foi levado ao Hospital de Charqueadas, onde recebeu as suturas e medicamentos.

Além dele, o menino descreve, outros quatro tiveram cortes nas pernas, braços, mãos e até mesmo no peito, e queimaduras. Nenhum, contudo, com gravidade. Segundo a Secretaria Estadual de Educação, seis estudantes, entre 12 e 14 anos, precisaram de atendimento, dois por abalo psicológico.

O pai de Nicollas, o caldeireiro Marlon Camargo, 37 anos, compartilha do susto. Ele assegura que cobrou o filho pelo ato impensado. No entanto, reconhece que o garoto agiu sem pensar.

“Já xinguei ele, da gravidade do heroísmo que teve. Mas sei que agiu por instinto, sem pensar. Ele entende que poderia não estar aqui por querer salvar as colegas. Não foi uma vítima de assalto que reage. Ele quis ajudar as amigas. Elas estavam paralisadas”, conta.

Escola estadual fica em Charqueadas, a cerca de 60 quilômetros de Porto Alegre  — Foto: Arte G1/Rodrigo Sanches
Escola estadual fica em Charqueadas, a cerca de 60 quilômetros de Porto Alegre — Foto: Arte G1/Rodrigo Sanches

Charqueadas é considera pacata

Entre todas as nuances desse caso, a que mais incomoda a comunidade foi ter acontecido em uma cidade aparentemente pacata. Em 2019, Charqueadas teve apenas dois homicídios registrados entre os 1.019 de todos o estado, segundo dados da Secretaria da Segurança Pública até 4 de agosto. Ou seja, menos de 0,2% dos assassinatos aconteceram no município.

Além disso, a cidade, a mais populosa da região carbonífera, tem uma Penitenciária de Alta Segurança. Logo, recebe reforços destacados de segurança pública.

“Da região, é a mais segura. Não tem assalto. Tem outras com mais criminalidade. A gente não acha que vai acontecer na nossa cidade”, diz Marlon.

A direção da escola pleiteia junto à Secretaria Estadual de Educação um reforço na segurança. O funcionário que fazia a vigilância deixou o cargo e, até o momento, a vaga não foi reposta. Também não é destacado um policial militar residente.

Por sua vez, a escola compensa com sistema de câmeras e porta eletrônica. Acompanhamento psicológico e trabalhos que abordam a questão da violência também são desenvolvidos. Nicollas está confiante, mas apreensivo com os próximos dias:

“Confesso que não vou estar tão tranquilo. Tenho esperança que (todos) estejam felizes, mas tenho medo que aconteça de novo.”

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