Promovido por grupos de cultura negra da Capital, Festival Porongos traz atividades musicais, oficinas de escrita, exposições e outras atividades. Também para relembrar a Batalha de Porongos, mãe criou roupas de lanceiros negros para crianças.

Festival chega a sua segunda edição para celebrar a cultura negra em Porto Alegre  — Foto: Divulgação/Festival dos Porongos
Festival chega a sua segunda edição para celebrar a cultura negra em Porto Alegre — Foto: Divulgação/Festival dos Porongos

Com o objetivo de abrir espaço e dar visibilidade para a produção de artistas negros locais, o Festival Porongos acontece nesta sexta-feira (20), feriado farroupilha, com uma programação das 9h às 21h, na Casa de Cultura Mário Quintana. Confira a lista de atividades aqui.

Artistas negros da música, literatura, cinema, arquitetura, fotografia, participarão do evento, que chega à sua segunda edição neste ano.

O nomedo festival lembra e homenageia um dos episódios mais controversos da guerra dos Farrapos, em que cerca de 100 lanceiros, a maioria negros, foram mortos, durante um ataque nos últimos dias da Revolução Farroupilha, levante realizado por estancieiros gaúchos entre 1835 e 1845, para se rebelar contra o Império Brasileiro, vigente na época.

“O festival acontece para dar visibilidade a esse fato histórico que não é muito abordado e pontuar a existência de lanceiros negros na guerra civil Farroupilha”, conta a idealizadora do Festival Porongos, Thaise Machado.

“A gente tem um tradicionalismo aqui no Rio Grande do Sul que não dá visibilidade a essa história. O festival surgiu para ser um contraponto, e ocupar o mês de setembro com uma atividade negra”, continua.

Figurino de lanceiro negro foi criado por mãe para os festejos farroupilhas  — Foto: Arquivo Pessoal/Edjana Santos Deodoro
Figurino de lanceiro negro foi criado por mãe para os festejos farroupilhas — Foto: Arquivo Pessoal/Edjana Santos Deodoro

Mãe cria figurino de lanceiros negros para crianças

Também para reverenciar e marcar a presença dos lanceiros negros nas comemorações farroupilhas, a fisioterapeuta Edjana Santos Deodoro, de Porto Alegre, criou um figurino inspirado nas representações dos soldados para crianças. Participante do grupo de valorização da cultura negra Afrosul Odomodê, Edjana vendeu alguns exemplares da roupa neste ano.

A ideia surgiu no ano passado, quando seu filho, Caio, então com dois anos, foi convocado a ir vestindo roupas de gaúcho para participar de um evento na escola. “Nunca fiz questão de vestir meus filhos de gauchinhos porque entendo a Revoluçao Farroupilha de outra maneira”, afirma.

Ela então costurou a roupa, e explicou a história para Caio. “Explicamos que os heróis da Revolução Farroupilha foram os lanceiros negros, mas no final, eles foram traídos”, afirma.

“Falei de maneira lúdica, que ele fosse entender e ter orgulho de usar aquela roupinha. Ele chegou dizendo que estava vestido de herói”, comenta.

Neste ano, ela disponbilizou as peças, criadas a partir de pesquisas de historiadores sobre o tema, para a venda. “Muitas mães podem estar no mesmo dilema: ou teu filho não participa das festividades farroupilhas, ou tu veste teu filho com uma roupa que não te representa”, relata.

Mas afinal, o que é a Batalha dos Porongos?

Na madrugada de 14 de novembro de 1844, uma tropa de soldados farroupilhas foi atacada pelos opositores imperialistas, no Cerro dos Porongos, região em que hoje está a cidade de Pinheiro Machado, na época ainda um distrito de Piratini. Mais de 100 pessoas, a maioria negros, morreu, e outras 300 foram presas.

A professora de História Cleusa Gomes Graebin comenta que o episódio ajudou a evidenciar a presença dos negros nas batalhas farroupilhas. Grande parte das tropas era formada por negros, tanto do lado imperial quanto do lado farrapo. “Tínhamos também indígenas participando em número considerável, e outras etnias que viviam no sul”, ressalta.

Os soldados eram recrutados por decretos. Documentos da época mostram que era permitido que um branco recrutado oferecesse em seu lugar um negro, com carta de alforria. “Mas também a gente vai ter muitas fugas de negros escravizados, que iam aderir ou à causa farrapa ou aos imperiais, por conta de que lhes era prometida a alforria”, comenta.

Há suspeitas de que o general da tropa, Davi Canabarro, tenha “combinado” o ataque com o governo imperial, com quem as tratativas de paz já estariam avançadas. “É um episódio da guerra que é envolto em muitas controvérsias”, diz a professora.

“Para nós, negros, isso interessa sobremaneira. Foi a partir desses estudos sobre Porongos que os hisoriadores se debruçaram sobre a presença dos negros da Revolução Farroupilha”, afirma a estudiosa.

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