Tarefas domésticas e cuidados com os filhos são fatores que dificultam no trabalho remoto. Pesquisadoras apontam que diferenças raciais também exacerbaram com o coronavírus. Fernanda Staniçuaski é bióloga na Ufrgs e coordena o projeto Parent in Science
Flávio Dutra/Jornal Universitário UFRGS
Com os trabalhos remotos durante a pandemia, mulheres pesquisadoras no Rio Grande do Sul vêm enfrentando dificuldades para seguir com os estudos e escrever e submeter artigos. Além disso, precisam conciliar as atividades científicas com as tarefas domésticas e os cuidados com os filhos.
Antes do coronavírus, o projeto Parent in Science, que discute as questões da maternidade na ciência, fez um levantamento em que apontou que metade das mulheres cientistas que responderam eram as únicas responsáveis pelos filhos.
Após o início do isolamento social, o projeto fez um novo questionário, respondido por cerca de 15 mil cientistas — homens e mulheres. Os resultados finais devem ser divulgados ainda este mês.
“Olhamos duas coisas principais: cumprimento de prazos e submissão de artigos, que para os docentes é o essencial. Tanto no cumprimento de prazos quanto na submissão dos artigos temos um efeito de gênero, um efeito de raça e um efeito de parentalidade que impacta. Ter filhos impacta e ser negro impacta”, explicou a coordenadora do Parent in Science, a bióloga Fernanda Staniçuaski, que idealizou a iniciativa em 2017.
Mesmo sem os resultados, a pesquisadora observa que a comunidade científica já percebeu uma queda nos artigos submetidos por mulheres pesquisadoras.
“Mostra que quem está conseguindo trabalhar em casa tem um perfil bem claro: são homens sem filhos. Eles seguem trabalhando de uma maneira bem mais parecida com o normal do que os outros grupos”, aponta Fernanda, que tem três filhos, de sete, cinco e um ano, e divide as tarefas com o marido, que também é cientista.
Para Fernanda, as questões da maternidade, que já eram percebidas, serão ainda mais evidentes.
“O que a gente vai ver: com menor produtividade, vai ter menos competitividade. Ganha menos editais e, com menos editais, tem menos dinheiro, produz menos, e assim segue esse ciclo. A gente vê isso na maternidade como um todo, mas agora vai estar exacerbada nessa questão da pandemia.”
Questão racial também é sensível
Um resultado preliminar do levantamento feito pela Parent in Science durante a pandemia apresentou que a produção das mulheres negras não teve uma queda tão significativo em relação a antes do isolamento.
“Para ela [mulher negra] a queda foi baixa, porque já é baixa por natureza”, enfatiza a física e pesquisadora da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), Eliade Lima.
Em Uruguaiana, na Fronteira Oeste, a física trabalha em três frentes: pesquisa em astrofísica, popularização da astronomia e defesa da permanência de mulheres nas ciências exatas. O projeto Cientistas do Pampa realiza palestras em escolas públicas para falar sobre a presença de mulheres na área.
“Por eu ter passado por uma situação de assédio em 2006, dentro de um departamento absolutamente masculino, meu apoio hoje não é só a entrada de meninas. Temos que trabalhar também dentro da universidade para incentivar a permanência. Não depende só das meninas que entram, depende dos professores, da instituição e de elas entenderem quando são configuradas as situações de assédio. São vários sujeitos”, enfatiza a física.
Com a pandemia, Eliade notou que há uma pressão muito maior para produzir do que havia até então.
“Entrei em uma neura de trabalhar de madrugada, trocar o dia pela noite, ter que produzir a qualquer custo. Fiquei com a sensação que, por mais que meu marido me ajude, se eu trabalhar muito, fico devendo na questão familiar. Noto que, psicologicamente falando, a gente fica bastante abalada”, completa.
Precarização do trabalho
Em Pelotas, no sul do Estado, a psicóloga e professora da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Camila Peixoto Farias, coordena o projeto Agora é que são elas: a pandemia de COVID-19 contada por mulheres, que foi respondido por cerca de 6 mil mulheres.
A psicóloga é mãe de um menino de 1 ano e 10 meses e ressalta que a precarização do trabalho é um dos fatores negativos apresentados pela pandemia. Entretanto, Camila relembra que o fenômeno já ocorria antes da pandemia, mas, com o momento, se agrava ainda mais.
“Podemos dizer que a pandemia intensifica a precarização do trabalho de nós, cientistas mulheres, uma vez que intensifica nosso trabalho nas frentes de cuidado tanto familiares quanto sociais. Além disso, não podemos esquecer que essa precarização do trabalho não é uniforme no meio científico. Ela se distribui de forma desigual a partir de marcadores sociais como raça, gênero, orientação sexual, classe social, maternidade. Por exemplo, encontraremos nas universidades um número ainda pequeno de pesquisadoras negras, de pesquisadoras oriundas de classes menos favorecidas”, aponta Camila.
Falta de representatividade
A coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Bioquímica e Bioprospecção da UFPel, Márcia Mesko, aponta que em algumas áreas da ciência as mulheres já têm uma presença maior. Porém, quando analisado os cargos mais altos, a predominância é de homens.
“As mulheres são praticamente 50%, o que não seria muito surpreendente em função da proporção nossa na população. Entretanto, quando a gente começa a ver a ascensão nos cargos, isso começa a mudar. Tem um certo filtro, percebemos isso na universidade. Falta de representatividade nos âmbitos de cargos mais altos”, aponta.
Para ela, as mulheres precisam trabalhar e entregar muito mais para chegar em um mesmo nível que os homens. Conforme a professora, a pandemia evidenciou ainda mais as desigualdades e pode gerar uma perda de espaços conquistados.
“A questão de mulheres conquistarem um espaço e terem voz nesse espaço acaba abafada agora porque não tem reuniões presenciais. Não tem aquilo de uma ajudar a dar voz para a outra, quando são duas dentro de uma sala. Ou em um evento científico, onde as pessoas se encontram e fortalecem as ideias. Isso também estamos perdendo”, aponta Márcia.

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