Operação também cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços de outras pessoas ligadas a Flávio Bolsonaro. De São Paulo, Fabrício Queiroz foi levado para o Rio de Janeiro, onde está preso
Praticamente duas horas de viagem. Era 12h08 quando o helicóptero da Polícia Civil de São Paulo pousou no aeroporto de Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio. Ao desembarcar, Fabrício Queiroz recebeu voz de prisão da promotora Patrícia Villela. Ela é do grupo de combate à corrupção do Ministério Público Estadual, responsável pela investigação do suposto esquema de rachadinha no gabinete do então deputado estadual, Flávio Bolsonaro.
Fabrício Queiroz foi revistado e obrigado a vestir um colete à prova de balas. O MP pediu a prisão porque considera que Queiroz praticava atos ilegais, como manipular provas para atrapalhar as investigações.
. Fabricio Queiroz estava em Atibaia, em uma casa registrada em nome do escritório de advocacia de Frederick Wassef, advogado de Flávio Bolsonaro
A decisão do juiz Flávio Itabaiana afirma que Queiroz, mesmo escondido em Atibaia, ainda tinha influência sobre milicianos no Rio de Janeiro e influência política para pleitear nomeações em cargos comissionados, chegando ao ponto de ter sido comparado pela esposa a um bandido preso dando ordens fora da cadeia. Segundo o juiz, isso demonstra que ele poderia ameaçar testemunhas e outros investigados e ser um obstáculo para a apuração dos fatos.
A decisão aponta ainda como motivos para a prisão o fato de Queiroz e a mulher estarem se escondendo, recebendo auxílio de terceiro que, possivelmente, detém autoridades sobre os referidos investigados, não se podendo perder de vista que cogitam fugir caso tenham ciência da decretação de sua prisão.
Em uma conversa telefônica com a mulher dele, Fabricio promete interceder junto a milicianos, pessoalmente, quando estivesse no Rio, demonstrando sua periculosidade, por ainda manter influência sobre o grupo criminoso.
O documento afirma também que diálogos interceptados demonstram que foram providenciadas assinaturas retroativas de uma servidora nos livros de ponto da Alerj. Seria uma forma de apagar provas do esquema da rachadinha.
A decisão judicial destaca que Queiroz pagou, em espécie, dois títulos nos valores de R$ 3.382 e R$ 3.560, em outubro de 2018, para mensalidades escolares das filhas do ex-deputado estadual Flávio Bolsonaro.
Ainda de acordo com a decisão, documentos apreendidos na casa da mulher de Queiroz, Márcia Oliveira de Aguiar, comprovam que ela recebeu pelo menos R$ 174 mil, em espécie, de origem desconhecida e usou para pagar, também em dinheiro, as despesas do Hospital Albert Einstein, onde Queiroz ficou internado no ano passado.
O Ministério Público afirma que chegou ao paradeiro de Queiroz com base em dados extraídos do celular da esposa dele. A partir daí, conseguiu descobrir o endereço de onde ele estava e constatou que havia uma rotina de ocultação do paradeiro de Queiroz articulada por uma pessoa que tinha como codinome ‘anjo’.
Segundo o MP, essas informações foram obtidas pelo rastreamento de fotos encaminhadas para a mulher de Queiroz.
Queiroz saiu do aeroporto de Jacarepaguá num comboio do Ministério Público, que seguiu por vias importantes da cidade. Ele foi levado para o Instituto Médico Legal para exame de corpo de delito. Uma chegada tumultuada: os carros entraram pelos fundos, onde só pessoas autorizadas puderam se aproximar.
Fabrício Queiroz ficou cerca de 20 minutos no Instituto Médico Legal do Rio. Depois, o comboio do Ministério do Público o levou para uma unidade prisional. A primeira parada foi no presídio de Benfica, na Zona Norte. Cada passo determinado pela lei foi cumprido. Fabrício Queiroz teve que ser fichado deu entrada, oficialmente, no sistema carcerário e pode falar com o advogado.
Paulo Emílio Catta Preta assumiu o caso nesta quinta (18). “Me parece excessivo que uma pessoa que sempre esteve à disposição, que está em tratamento de saúde, ofereceu esclarecimento nos autos e não apresente risco nenhum de fuga, enfim, ela sofra uma medida tão pesada como é a prisão preventiva. Mas eu só vou poder fazer um juízo definitivo disso no momento que eu tiver a decisão”, destacou o advogado.
O juiz que expediu o mandado de prisão contra Fabrício Queiroz foi o mesmo que determinou que ele fosse levado para o conjunto penitenciário de Bangu por questões de segurança.
O juiz Flávio Itabaiana, da vigésima sétima vara criminal do Rio, também determinou a prisão da mulher de Queiroz. Márcia Oliveira de Aguiar não foi encontrada e é considerada foragida. De acordo com investigações, Márcia repassou quase R$ 500 mil para a conta de Fabrício Queiroz entre 2007 e 2018.
O MP também afirma que Márcia exercia a profissão de cabeleireira em 2008, quando já estava nomeada para um cargo comissionado na Assembleia Legislativa do Rio. Segundo promotores, Márcia nunca retirou o crachá funcional exigido para frequentar a Alerj. Seria uma funcionária fantasma.
No Rio, a operação foi conduzida apenas por agentes do Ministério Público. A Justiça também autorizou cumprimento de mandados de busca e apreensão. Um dos alvos foi no endereço de Alessandra Esteves Marins. Ela trabalhou como assessora de Flávio Bolsonaro na Alerj. Hoje, Alessandra Marins tem cargo comissionado no gabinete de Flávio Bolsonaro no Senado. O salário é de quase R$ 9 mil.
Os agentes saíram da casa, levando malotes. Vizinhos contaram que Alessandra se mudou há cerca de um mês. A casa fica na mesma rua onde o presidente Jair Bolsonaro tem um imóvel, declarado na lista de bens divulgada pelo TCE, quando era candidato em 2018.
Segundo o Ministério Público, Alessandra também é suspeita de participação no esquema da rachadinha e está entre os assessores que fizeram as transações financeiras mais relevantes com Fabricio Queiroz.
Assim como a ex-funcionária da Alerj Luiza Paes Souza. O MP também cumpriu mandado de busca e apreensão na casa dela, e ainda na residência do advogado Luis Gustavo Botto Maia e de outro servidor da Assembleia Legislativa do Rio Matheus Azeredo Coutinho. Matheus trabalhava no setor de pessoal da Alerj e tinha acesso a informações que poderiam confirmar a existência de funcionários fantasmas no gabinete de Flávio Bolsonaro.
O Jornal Nacional apurou que os promotores descobriram que Queiroz tentava manipular essas informações para apagar os vestígios do crime.
A Justiça exigiu o afastamento dos investigados de funções públicas, o comparecimento mensal em juízo e a proibição de contato com testemunhas.
Fabrício Queiroz chegou ao conjunto penitenciário de Bangu por volta das 15h30. Ele está no presídio Pedrolino Werling de Oliveira, chamado de Bangu 8, onde estão outros presos conhecidos, como o ex-governador do Rio, Sérgio Cabral. Durante 14 dias, ele ficará em isolamento social, um protocolo de prevenção ao coronavírus.
Luis Gustavo Botto Maia não respondeu ao nosso contato. Nós não conseguimos falar com Alessandra Esteves Marins, Luiza Paes Souza, Matheus Azeredo Coutinho e Márcia Oliveira de Aguiar.

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