Desde o início do escândalo, o senador manifestou opiniões diferentes sobre o ex-assessor. Flávio Bolsonaro tentou 9 vezes interromper na Justiça investigações sobre Queiroz
O senador Flávio Bolsonaro tentou nove vezes interromper, na Justiça, as investigações sobre Fabrício Queiroz. E, desde o início do escândalo, manifestou opiniões diferentes sobre o ex-assessor.
Na primeira vez em que falou sobre o assunto, em dezembro de 2018, o então senador eleito Flávio Bolsonaro disse confiar nas explicações de Fabrício Queiroz.
“Fui cobrar esclarecimentos dele sobre o que estava acontecendo. A gente não tem nada a esconder de ninguém. Ele me relatou uma história bastante plausível. Me garantiu que não teria nenhuma ilegalidade nas suas movimentações, portanto, ele, assim que for chamado ao Ministério Público, vai dar os devidos esclarecimentos. Só que quem tem que ser convencido não sou eu, é o Ministério Público”, disse Flávio Bolsonaro.
O Ministério Público do Rio não só não se convenceu, como passou a investigar também o próprio senador. Depois de identificar as transações bancárias do ex-assessor, o Coaf relatou movimentações suspeitas também na conta de Flávio Bolsonaro.
Foram 48 depósitos de R$ 2 mil em dinheiro vivo, no total de R$ 96 mil, em junho e julho de 2017. Todos foram feitos na agência bancária que fica dentro da Assembleia Legislativa do Rio. O relatório afirma que o fato de terem sido feitos de forma fracionada desperta a suspeita de ocultação da origem do dinheiro.
O senador se defendeu dizendo que recebeu o dinheiro vivo na venda de um imóvel e que fracionou os depósitos porque era o limite máximo do caixa de autoatendimento.
Mas o Ministério Público continuou investigando e, em maio de 2019, obteve a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Flávio Bolsonaro, da mulher dele, Fernanda Bolsonaro, e de dezenas de outras pessoas e empresas ligadas a eles.
Segundo o Ministério Público do Rio, o hoje senador Flávio Bolsonaro é o chefe de uma organização criminosa que atuou no gabinete dele na Assembleia Legislativa do Rio de 2007 a 2018, quando ele era deputado estadual.
Os promotores rastrearam os valores e afirmam que uma parte do dinheiro ganho pelo senador no esquema das rachadinhas virou chocolate. Flávio e Fernanda Bolsonaro se tornaram sócios em uma loja num shopping da Zona Oeste do Rio. O casal pagou R$ 1 milhão e, segundo as investigações, o valor não era compatível com a renda dos dois. “Circunstância que levanta a fundada suspeita de que parte dos recursos desviados da Assembleia Legislativa possa ter sido lavada por meio do empreendimento comercial”.
Também chamou atenção dos promotores o fato de que as vendas em dinheiro vivo da loja eram praticamente o dobro do normal, mais de 40%. E, na Páscoa, as vendas em cartão aumentavam, enquanto o volume de negócios em dinheiro não mudava.
Os promotores afirmam que Flávio Bolsonaro também usou negócios imobiliários para encobrir os desvios de recursos da Alerj. As investigações citam a compra e venda de apartamentos no Rio.
Segundo o Ministério Público, as transações de Flávio Bolsonaro e da mulher dele envolvendo os imóveis logo chamaram atenção pela lucratividade excessiva entre os preços de compra e de venda.
Os promotores suspeitam que o casal comprou apartamentos por valores maiores do que os registrados nas escrituras, e que isso só foi possível porque houve pagamentos por fora. A investigação apurou que, no mesmo dia em que vendeu dois apartamentos ao casal, um representante dos proprietários fez dois depósitos em dinheiro vivo na própria conta. Valor: R$ 638.400,00.
Desde o início do trabalho dos promotores, o senador Flávio Bolsonaro tentou barrar as investigações. Ele recorreu ao Tribunal de Justiça do Rio, ao Superior Tribunal de Justiça e ao Supremo Tribunal Federal. Ao todo foram nove tentativas.
Em julho de 2019, o presidente do STF, ministro Dias Toffoli, chegou a suspender não só a investigação contra Flávio Bolsonaro, mas também todas as outras que usavam dados fornecidos pelo Coaf e pela Receita sem autorização da Justiça. Em novembro, o Plenário do Supremo derrubou a liminar e as investigações foram retomadas.
Ao longo de 2019, Flávio Bolsonaro afirmou várias vezes que tinha se afastado de Fabrício Queiroz, como em entrevista ao programa Em Foco, na GloboNews.
“Do início do ano [2019] para cá, eu perdi o contato com ele. Até porque, se eu falo com ele no telefone, vão dizer que eu estou querendo combinar alguma coisa. Ainda posso ser acusado de estar tentando obstruir a Justiça, enfim. Então, para evitar qualquer coisa, eu me afastei completamente”, afirmou Flávio Bolsonaro em agosto de 2019.
Além do distanciamento, as palavras do senador indicavam um rompimento. Em uma entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, Flávio Bolsonaro diz que errou ao confiar em Fabrício Queiroz
“Na verdade, é uma grande decepção, uma pessoa que você confia e que vai te induzindo ali, conquistando um espaço, e você, sem perceber, ao longo dos anos, quando você olha agora você consegue enxergar o retrato. Mas com o passar do tempo eu não enxergava, então talvez meu erro tenha sido esse, de confiar demais nele, sem dúvida”, afirmou em maio de 2019.
Em maio deste ano, o senador mudou de tom. E, ao mandar um recado ao governador do Rio, Wilson Witzel, fez até elogios a Fabrício Queiroz.
“Onde eu ia você ficava ligando para o Queiroz, botava assessor para ligar para ele para saber onde eu estava, para ir atrás de mim na campanha, porque sabia que o Queiroz estava do meu lado, trabalhando. Um cara correto, trabalhador, dando sangue por aquilo que ele acredita”, disse.
A relação entre Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz voltou a ser comentada em maio, quando o empresário Paulo Marinho, suplente de Flávio Bolsonaro, deu uma entrevista ao jornal Folha de S.Paulo.
Paulo Marinho disse que Flávio Bolsonaro foi informado com antecedência sobre a operação policial que acabou revelando as transações financeiras de Queiroz.
Segundo o empresário, Flávio Bolsonaro repassou essa informação ao pai. Paulo Marinho diz que, diante do relato do filho, Jair Bolsonaro mandou demitir Queiroz e também a filha dele. Nathália Queiroz trabalhava no gabinete do então deputado federal Jair Bolsonaro.
Pai e filha foram demitidos dos gabinetes no mesmo dia em que, segundo Paulo Marinho, houve o vazamento da operação policial: 15 de outubro de 2018.
Nesta quinta (18), numa rede social, o senador Flávio Bolsonaro comentou a prisão do ex-assessor, dizendo:
“Encaro com tranquilidade os acontecimentos de hoje. A verdade prevalecerá! Mais uma peça foi movimentada no tabuleiro para atacar Bolsonaro. Em 16 anos como deputado no Rio, nunca houve uma vírgula contra mim. Bastou o presidente Bolsonaro se eleger para mudar tudo! O jogo é bruto!”

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