Capa do álbum ‘Amor de lua’, de Emilio Santiago
Lívio Campos
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Amor de lua, Emilio Santiago, 1981
♪ Quando Emilio Vitalino Santiago (6 de dezembro de 1946 – 20 de março de 2013) saiu de cena, aos 66 anos, o Brasil chorou a morte desse cantor de aveludada voz de barítono.
Por ignorar o suprassumo da discografia do artista carioca, o povo brasileiro se entristeceu com a partida precoce do cantor sem de fato conhecê-lo por inteiro porque o chamado grande público começara a ouvir Emilio Santiago com atenção somente a partir de 1988, ano da edição do primeiro dos sete volumes da série Aquarela brasileira, idealizada por Roberto Menescal.
Composta basicamente de medleys com regravações de sucessos nacionais antigos e recentes, entremeados com uma ou duas músicas inéditas, a série Aquarela brasileira rendeu sete volumes – editados entre 1988 e 1994 pela gravadora Som Livre – e transformou Emilio Santiago, enfim, no campeão de vendas que o cantor mereceria ter sido por álbuns anteriores como Amor de lua (1981). Contudo, a série de nem longe constituiu o auge artístico da discografia do intérprete.
Crooner de afinação e emissão perfeitas, revelado a partir de 1970 em festivais universitários e projetado em 1973 ao participar do programa de calouros A grande chance (TV Tupi), do apresentador Flávio Cavalcanti (1923 – 1986), Emilio Santiago burilou a voz na noite carioca, inicialmente na orquestra de Ed Lincoln (1932 – 2012) – maestro que o cantor reverenciou no último álbum de estúdio, Só danço samba (2010) – e em boates cariocas.
No embalo da repercussão que obteve ao participar do programa de Flávio Cavalcanti, Emilio iniciou a carreira fonográfica em 1973 com a edição de single com as então inéditas músicas Transa de amor (Sebastião Tapajós e Marilena Amaral) e Saravá nega (Odibar). Na sequência, entre 1975 e 2012, o cantor lançou 30 álbuns em obra fonográfica que destacou os 10 LPs editados por Emilio na Philips / Polygram entre 1976 e 1984.
Nesses discos, Emilio lançou músicas inéditas de compositores de peso como Djavan, Edu Lobo, Francis Hime, Gonzaguinha (1945 – 1991) João Donato e Jorge Aragão sem, contudo, ter se firmado como cantor popular no universo da MPB, em que pesem alguns sucessos eventuais como os sambas Nega (Vevé Calazans, 1977) e Pelo amor de Deus (Paulo Debétio e Paulinho Resende, 1982), composição defendida pelo cantor no festival MPB-Shell 82, exibido pela TV Globo.
Oitavo álbum de Emilio Santiago, Amor de lua é um desses grandes discos do cantor que nunca foram devidamente ouvidos pelo público que fazia coro com o intérprete em sucessos como Saigon (Claudio Cartier, Paulo César Feital e Carlão, 1985), hit da fase da série Aquarela brasileira.
Álbum produzido por Sérgio de Carvalho (1949 – 2019), com arranjos de Antonio Adolfo, João Donato e José Roberto Bertrami (1946 – 2012), Amor de lua foi disco formatado com repertório inédito de alto nível, dominado pelo samba e quase sempre à altura da voz grave e aconchegante de Emilio Santiago.
Parceria de João Donato com Cacaso (1944 – 1987), o samba Primeiro e segundo é uma das joias raras que ficaram no fundo do baú do álbum Amor de lua. Outro samba lançado pelo cantor no disco e também nunca regravado desde então, Leva e traz trouxe a assinatura dos bambas Jorge Aragão e João Batista Alcântara, o Jotabê, nomes então já recorrentes na discografia de Emilio.
Com letra que dialogou com a linguagem de sambas antigos, Leva e traz foi tentativa frustrada de Emilio de repetir a repercussão de dois sambas da dupla que haviam sido popularizados pelo cantor em discos recentes, Cabelo pixaim (lançado por Aragão em single de 1977, mas propagado na voz de Emilio em 1978) e Logo agora (lançado pelo artista em 1979 no álbum O canto crescente de Emilio Santiago).
Samba inédito de Gonzaguinha, Nós ou ninguém soou como título menor do cancioneiro desse grande compositor que seria celebrado por Emilio – 20 anos após o lançamento do LP Amor de lua – no álbum Um sorriso nos lábios (2001). A letra já evidenciou que Luiz Gonzaga Jr. reciclava em Nós ou ninguém a temática de outras músicas recentes do compositor.
Já o bolero Jogo do amor (Hermes de Aquino e Sergio Napp) soou classudo, com direito a citação de Contigo aprendi (Armando Manzanero, 1967), clássico do gênero.
No mesmo clima acariciante, Mais uma vez (Luiz Guedes e Thomas Roth) se situou na tênue fronteira entre o bolero e o samba-canção. Samba de Antonio Adolfo com Paulinho Tapajós (1945 – 2013), também esquecido no repertório do álbum Amor de lua, Desafogo reiterou a excelência dos arranjos do disco. No caso de Desafogo, o arranjo foi de Antonio Adolfo, um dos autores do samba.
Nessa seara da orquestração, o arranjo criado por José Roberto Bertrami para envolver Me dá, me dá agregou valor a esse samba obscuro da parceria de Francis Hime com Cacaso. Da mesma forma, João Donato soube dar a forma perfeita a Diapasão, parceria do compositor acriano com o poeta Abel Silva.
Música-título do álbum, Amor de lua (Vital Lima) abriu o lado B do LP com lirismo onírico, destilado em tempo de delicadeza.
Perfeita para evidenciar a beleza de Vontade de viver, uma das melhores composições de Claudio Nucci (canção gravada pelo autor no mesmo ano de 1981, em dueto com Nana Caymmi, e desde então esquecida), a maciez da voz de Emilio Santiago também valorizou Estranho (Nilton Barros) e Cadê você (Carlos Drummond e Darci Marcelo), sambas de menor estatura no conjunto do álbum Amor de lua, disco de arquitetura acústica, construída com pianos, violões e sopros.
Encerrado com a suavidade sedutora de Cena breve, parceria de Edu Lobo com Cacaso inexplicavelmente esquecida neste grande disco de Emilio, o álbum Amor de lua se conservou tão primoroso ao longo dos últimos 40 anos que paira no ar a incômoda sensação de que o Brasil precisa descobrir não somente esse disco, mas o próprio Emilio Santiago, cantor de tons bem mais refinados e variados do que fizeram supor os sete volumes da popular série Aquarela brasileira.

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