Formado por colaboradores voluntários, Laboratório de Patologia Clínica já realizou mais de 15 mil testes de pacientes de 40 cidades. Falta de uso dos dados gerados é motivo de crítica por parte dos profissionais. Laboratório de testagem para Covid-19 da Unicamp
Alessandro Farias/Arquivo pessoal
Não são somente os médicos e profissionais de saúde trabalhando diretamente nos hospitais que estão na linha de frente no combate ao coronavírus (Sars-CoV-2). Longe dos pacientes, técnicos e voluntários que atuam nos laboratórios de testagem também lidam com uma rotina de exposição, tensão e medo de contágio. É assim no Laboratório de Patologia Clínica da Unicamp, onde mais de 15 mil testes de Covid-19 foram realizados desde o início de abril.
Os exames são provenientes de 40 municípios da região de Campinas. Inicialmente projetado para atender a demanda interna do Hospital de Clínicas da Unicamp, a testagem foi ampliada para suprir a demanda da região.
Esse crescimento ocasionou em uma ampliação do laboratório e do número de pessoas envolvidas na operação. Atualmente são mais de 40 funcionários sob coordenação da Frente de Diagnósticos da Força-tarefa contra a Covid-19 da Unicamp, liderada pelo professor Alessandro Farias.
O laboratório conta ainda com dois robôs que, somados, poderiam testar cerca de 180 amostras por hora. No entanto, o procedimento não chega a tanto não só por falta de demanda – uma vez que o laboratório não tem enfrentado problemas de sobrecarga -, quanto pelo fator humano. Isso porque antes de serem colocadas na máquina, as amostras têm que ser processadas.
“Você tem um processo que é manual. A gente tentou automatizar de todas as formas, mas não é viável. Não tem como acelerar e ninguém vai me fazer acelerar ele, porque vai causar risco para quem está processando. Então a gente tem cerca de 15 pessoas que fazem esse processo de preparo da amostra para que ela possa entrar na linha de automatização”, explica Farias.
Laboratório de Patologia Clínica da Unicamp
Alessandro Farias/Arquivo pessoal
Riscos de contágio
Evitar os riscos para quem está trabalhando no laboratório é justamente uma das preocupações do coordenador. São 12 horas diárias de trabalho no local, com exposição direta a materiais que podem estar contaminados com o coronavírus.
“É muito tenso. Até porque a gente tem uma preocupação muito grande de contaminação do próprio grupo que está fazendo o trabalho. Até o momento aqui não teve ninguém que testou positivo. A gente está, sem contar a parte de preparação, desde o dia 1º de abril fazendo isso sem ter ninguém infectado. Então acho que isso é importante”, diz Farias.
Para mitigar as ameças, a equipe trabalha com as amostras em cabines de segurança. Além disso, são utilizados equipamentos de proteção individual (EPIs), como roupas apropriadas, máscaras e dois pares de luvas.
“O que a gente garante é que o processo está bem desenhado, de uma maneira que a gente corre muito pouco risco. E a gente tem a paramentação, os EPIs necessários para que a gente não corra riscos desnecessários. Se um dia não tiver o EPI, a gente não vai fazer. É simples assim. Nosso compromisso inicial é com quem está trabalhando”, afirma o professor.
Mesmo assim, Farias conta que professores e funcionários da universidade que trabalham no local têm passado dias e até meses longe de familiares e amigos.
“A gente tem um problema, nós, que somos mais da linha de frente, de ficar bastante longe da família. E você não quer ter o contato também. Então você fica um pouco entre a cruz e a espada. Você tem muito pouco contato, podia ter mais, mas é melhor que tenha pouco”, diz
“Porque você está se colocando em risco voluntariamente, mas você vai colocar gente sem ser voluntária em risco se fizer isso. Então afeta bastante essa falta de contato mais constante com a família. É uma coisa que afeta todo mundo”, completa o coordenador.
Laboratório de Patologia Clínica da Unicamp
Alessandro Farias/Arquivo pessoal
O processo de testagem
Com a parceria realizada com o Instituto Butantan, o laboratório da Unicamp passou a receber os pedidos de testes do Instituto Adolfo Lutz. É um processo dividido em várias etapas:
As amostras são colhidas no hospital em que o paciente está e enviadas ao instituto.
O Instituto Adolfo Lutz recebe e reenvia para o laboratório da Unicamp.
A testagem é realizada e demora em média 48 horas para ficar pronta no laboratório.
O resultado é enviado para o Instituto Adolfo Lutz, que devolve os testes para os devidos hospitais. São eles os responsáveis por informar os pacientes.
O processo no laboratório funciona como uma linha de produção complexa, em que um profissional processa a amostra antes dela ser disponibilizada para o robô. Depois a máquina faz uma preparação e na sequência ela passa para outro equipamento, que é o responsável por fazer a análise em si. Essa última etapa demora cerca de duas horas.
Laboratório de Patologia Clínica da Unicamp
Alessandro Farias/Arquivo pessoal
Resultados e possibilidades de uso
Com mais de 15 mil testes realizados, o laboratório ajudou a desafogar o sistema de saúde do estado de São Paulo. A aprovação como parceiro aconteceu ainda em março e, logo depois, houve a ampliação do laboratório para o aumento da capacidade.
Farias, no entanto, critica a falta de ações de prevenção e a pouca testagem de pacientes em todo o Brasil.
“Para muitos que estão no dia a dia, é muito ruim. Porque a gente que está ali correndo riscos, a gente que está ali tentando dar uma resposta. E os dados que a gente está criando não são usados para nada”, afirma o coordenador.
O professor explica acreditar que há no país cinco vezes mais pessoas infectadas. Isso porque a média de mortalidade no mundo, segundo Farias, é de 1%, enquanto no Brasil está em 5%. Ou seja, menos indivíduos com sintomas mais leves ou até inexistentes estão sendo testados.
Alessandro Farias, coordenador da Frente de Diagnósticos da Força-tarefa contra a Covid-19 da Unicamp
Unicamp
O coordenador da Frente diz ainda que caso houvesse uma testagem maior, seria possível fazer ações direcionadas especialmente para gerir melhor a capacidade de atendimento na rede de saúde.
“O que a gente faz no Brasil hoje é diagnóstico simplesmente. Você tem sintoma e se encaixa, e aí o teste diz se você tem (coronavírus) ou não. E é isso que a gente faz no Brasil. No máximo, os números que a gente faz são usados internamente, no próprio hospital. Mas os números que a gente gerou, não serviram para nada. Não são usados epidemiologicamente para nada. Isso é basicamente um absurdo. Porque você está jogando possibilidades fora”, afirma.
Coronavírus na região de Campinas
Desde o início da pandemia, a região contabiliza 20.448 casos positivos nos 31 municípios da área de cobertura do G1 Campinas. Além disso, já ocorreram 756 mortes em 24 cidades.
No município de Campinas em si, responsável por mais da metade dos casos registrados, são 10.474 moradores infectados, com 384 óbitos em decorrência do coronavírus.
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