O Conselho Nacional de Educação recomendou, em um parecer que está sendo avaliado pelo MEC, a flexibilização da frequência presencial. E abriu a possibilidade de as famílias decidirem pela continuidade das aulas em casa em situações específicas. Autoridades e sociedade enfrentam desafio do momento certo da volta às aulas nas escolas
A pandemia tem imposto às autoridades e à sociedade em geral uma decisão desafiadora: o momento certo de mandar os estudantes de volta para as salas de aula.
Foi em março que o calendário parou. Desde então, Isadora está longe da rotina das aulas. “Eu quero muito voltar a ir para a escola para poder ver meus amiguinhos, mas eu não posso devido ao corona”, diz a estudante de nove anos.
Em algumas regiões do Brasil, as escolas já têm data para reabrir. No estado de São Paulo, a previsão é a partir de 8 de setembro. Segundo o governo, com revezamento e até 35% da capacidade. Alunos receberão máscaras e professores e funcionários terão protetores faciais.
Nessa semana, professores protestaram contra a reabertura, que consideram irresponsável e precipitada.
Em Manaus, escolas particulares já retomaram as aulas presenciais. Nas estaduais da capital do Amazonas, as aulas devem voltar no próximo dia 10 para o ensino médio e em 24 de agosto para o fundamental.
O Paraná pretende retomar em setembro, mas não definiu data. Em Cuiabá, escolas municipais e privadas têm previsão de retorno em 2 de agosto. Em São Luís, um decreto liberou a volta das particulares no próximo dia 3. Em Natal, nesta quarta (29), o prefeito voltou atrás na decisão de reabrir as escolas municipais e particulares em agosto.
Como muitos pais, a mãe de Isadora vive uma angústia. “Na minha opinião não é hora de voltar. Porque criança, você sabe, criança não tem limite. Elas vão chegar, vão querer se abraçar, vão querer ter recreio, vão trocar lápis, borracha, essas coisas. Um coração de mãe fica apreensivo”, diz Elisângela Ferreira Garcia, mãe de Isadora.
Joana se preocupa com a saúde do filho, mas acha que já é possível retomar as aulas presenciais. Ela trabalha e mora sozinha com Thiago. “Me falta estrutura física e me falta estrutura mental, porque às vezes eu chego tão cansada que eu não consigo nem me disponibilizar a ajudá-lo. Ele tem oito anos, então para muitas atividades ele tem essa dificuldade de ter impedimento, de conseguir fazer sozinho. E infelizmente eu não consigo acompanhar“, conta Joana D’Arc de Lima, mãe de Thiago.
O Conselho Nacional de Educação recomendou, em um parecer que está sendo avaliado pelo MEC, a flexibilização da frequência presencial. E abriu a possibilidade de as famílias decidirem pela continuidade das aulas em casa em situações específicas, como a existência de comorbidades, doenças pré-existentes entre os membros da família.
Ninguém da atual geração de pais enfrentou um dilema assim: mandar ou não os filhos para a escola durante uma pandemia que se arrasta há meses. Uma decisão difícil que envolve dois dos principais valores da sociedade: saúde e educação. E que afeta de forma diferente famílias de alunos de escolas públicas e particulares.
Nas escolas públicas, as deficiências crônicas são motivo de desconfiança. “Uma escola que às vezes falta papel, falta água. Você acha que vai ter álcool? Não tem como”, avalia Elisângela Ferreira Garcia, mãe de Isadora.
A infectologista Keilla Mara de Freitas, que trabalha na linha de frente da Covid-19 e também é mãe, diz que o governo não deve transferir a responsabilidade para os pais. São as autoridades que, segundo ela, precisam tomar decisões e garantir a retomada com segurança. No cenário de hoje, não há essa garantia. “Do ponto de vista epidemiológico, agora ainda não seria o momento ideal. Essa faixa etária especialmente abaixo dos dez anos não é um grupo de risco, mas o risco nunca é zero. E, por menor que seja a porcentagem de complicação, obviamente quanto maior a quantidade de pessoas infectadas, maior a chance de aparecer esses casos mais graves. O que eu não acho que é interessante é deixar o peso dessa decisão em cima dos pais”, destaca.
A especialista em educação Claudia Costin diz que os pais devem decidir sim, como já acontece em outros países, porque são eles que conhecem as condições de saúde dos filhos e da família. Ela defende a volta às aulas quando as curvas de casos e mortes caírem. Mas diz que não faz sentido esperar a vacina, que pode demorar muito.
“Não há nada que substitua a escola. É na escola que se aprendem não só conceitos, mas também é a nossa introdução à sociedade. Se deixarmos as crianças sem aulas, certamente a desigualdade educacional enorme que nós temos no Brasil vai se agravar, e a crise de aprendizagem vai crescer mais ainda. Isso nós não podemos aceitar”, diz Claudia Costin, diretora de Políticas Educacionais da FGV.
Para evitar o aumento da desigualdade, ela defende que, quando houver condições de saúde, escolas públicas e particulares retomem as aulas presenciais na mesma época. Enquanto isso, as escolas e os pais precisam ir driblando as dificuldades.
“Eles têm que garantir que essa criança faça as atividades remotas. Isso não significa que ele não volta à escola e não aprende mais. Cabe a escola mandar as atividades no formato que essa criança tenha acesso.