Pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação para verificar efeitos da nitazoxanida na diminuição da carga viral do coronavírus foi iniciada na cidade em junho; mais de 70 pacientes participaram. Artigo com resultados será publicado em setembro. Centro de exames de Covid-19
Miva Filho/SES-PE
O estudo clínico do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) em Juiz de Fora para verificar os efeitos do vermífugo nitazoxanida no tratamento de pacientes com sintomas leves de coronavírus foi finalizado em agosto.
Ao todo, 76 pacientes integraram o estudo na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Santa Luzia. Para o G1, o médico infectologista e coordenador local da pesquisa, Marcos Moura, informou nesta segunda-feira (14) que os resultados do ensaio serão publicados ainda em setembro.
O objetivo da iniciativa, conforme o MCTI, era conseguir 500 voluntários em todo o país para concluir as pesquisas e verificar se, de fato, o antiparasitário tem efeito comprovado em humanos para reduzir a carga viral do novo coronavírus. Além de Juiz de Fora, as cidades de Ceilândia (DF), Bauru (SP), Sorocaba (SP), Guarulhos (SP) e São Caetano do Sul (SP) também receberam o estudo.
A nitazoxanida é um medicamento amplamente utilizado no país pelos nomes comerciais Azox e Annita e faz parte do grupo dos antiparasitários e vermífugos. O remédio também tem ação antiviral e é receitado em casos de rotavírus.
Para evitar automedicação, a droga passou a ser vendida apenas com prescrição médica em abril deste ano. Entretanto, uma decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de 1º de setembro retirou a exigência de retenção da receita. O medicamento contendo nitazoxanida, disponibilizado comercialmente, não tem a indicação para o coronavírus.
A reportagem conversou com coordenador do local do estudo e mostra o balanço dos dois meses de ensaio clínico na cidade. Veja abaixo.
Balanço
Infectologista Marcos Moura
Marcos Moura/Arquivo Pessoal
O estudo foi lançado em 23 de junho deste ano, coordenado pelo Hospital Maternidade Therezinha de Jesus (HMTJ) e realizado na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Santa Luzia. O ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Marcos Pontes, esteve em Juiz de Fora para a inauguração do projeto.
O objetivo final é avaliar a carga viral, os sintomas respiratórios, a taxa de internação hospitalar e os parâmetros inflamatórios num determinado período de tempo, entre o primeiro e o oitavo dia, que abrange a procura inicial e o retorno do paciente com Covid-19, após tratamento com nitazoxanida por cinco dias comparado ao placebo.
Até o dia 19 de agosto, quando o ensaio foi finalizado, foram 344 pessoas testadas para Covid-19 com o exame RT-PCR. Destes, 262 testaram negativo e 82 foram positivos.
Segundo o balanço do HMTJ, dos casos positivos, 76 integraram o estudo e seis desistiram de participar da iniciativa. Isso não significa que todos os pacientes ingeriram nitazoxanida, já que o ensaio é feito de forma randomizada, também chamado de trabalho duplo cego, quando uma parte dos pacientes toma placebo e outros recebem medicamento.
Dois pacientes participantes do estudo foram internados. “Não dá pra saber se foi quem tomou placebo ou tomou o medicamento, mas dois pacientes precisaram ser internados e já tiveram alta, passam bem. Um precisou ir para o CTI, mas não necessitou de ventilação mecânica. Não foi uma intercorrência grave”, afirmou o médico infectologista Marcos Moura.
Sobre o fim do projeto em Juiz de Fora, o coordenador informou que foi uma medida seguindo as determinações do Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep).
“Todo estudo com testes em pessoas têm que ser planejado na estatística, então se faz um levantamento e a Conep aprova o número de coletas ou voluntários. Quando se atinge esse número, tem que parar o projeto. Entende-se que, se for além do determinado, não mostraria mais benefícios para o resultado do estudo”, explicou.
Resultados
Ainda em setembro, a pesquisa assinada pelos coordenadores locais e a coordenadora geral do estudo, Patrícia Rieken Macedo Rocco, chefe do Laboratório de Investigação Pulmonar do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), será publicada em uma revista científica com os resultados dos testes clínicos.
“É importante para Juiz de Fora. É uma publicação que deve ter uma divulgação internacional, em uma revista de muito impacto, e nós vamos aparecer como um centro participante do projeto. O Hospital Maternidade Therezinha de Jesus aparece como um centro de pesquisa da Covid-19 e isso é um diferencial para a cidade”, avaliou Marcos.
A pesquisa passou por duas etapas até chegar na fase dos testes clínicos em humanos. Conforme dados do MCTI, na segunda etapa, a substância mostrou eficiência de 94% na inibição de carga viral em células mestres in vitro. Neste artigo, os pesquisadores tem o objetivo de verificar se o remédio tem eficácia para reduzir a carga viral do Sars-CoV-2 em humanos.
“É um fármaco de recolocamento, não é um medicamento exclusivo para a Covid-19. Ainda não sabemos se o efeito vai ser pleno ou parcial, mas como a nitazoxanida é um medicamento muito utilizado e muito seguro, se incorporarmos um efeito mesmo que parcial, seria um grande benefício. A ideia é diminuir a gravidade da doença”, relatou Moura.
Testagem
Sala de triagem do projeto de estudo clínico do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação na UPA Santa Luzia em Juiz de Fora
Cláudia Oliveira/G1
Conforme o coordenador, um dos principais pontos positivos de Juiz de Fora receber um ensaio clínico como este foi o aumento e a melhoria na testagem para a Covid-19, que ocorria de forma gratuita na UPA Santa Luzia.
Com o fim do ensaio clínico, os testes RT-PCR fornecidos pelo Ministério da Saúde na unidade foram encerrados. “Com a finalização do estudo, não podemos colher amostras que não serão utilizadas dentro da pesquisa, sem autorização do Conep. Estamos tentando, junto com o Mistério, buscar uma outra parceria para continuar com as testagens.
A realização destes exames continuam ocorrendo pelo Sistema Único de Saúde (SUS) através da Prefeitura e do Governo de Minas. Porém, Marcos afirmou que os exames feitos pelo estudo ajudaram a melhorar o entendimento do perfil epidemiológico da doença no município.
“Na época, mais de 10% da testagem de Juiz de Fora chegou a ser feita pelo estudo do Ministério da Ciência e Tecnologia. Isso também contribuiu para um aumento no diagnóstico de Covid-19 na cidade”, concluiu.